Camazotz, Deus Morcego: os secretos ensinamentos dos Nahuas

Escultura feita pelo estúdio mexicano chamado Kimbal junto com a Warner Bros.
Esta escultura não é originalmente do Deus Morcego!

Em Chiapas, existe o povoado de Tzinacatlán, habitado pelos tzoctziles (gentes do morcego) da família maia e, no vale de Toluca, o povoado Tzinacantepec. No Popol Vuh (a Bíblia Maia), o morcego é um Anjo que baixou do céu para decapitar os primeiros homens maias, feitos de madeira. Foi o morcego celeste que aconselhou Ixbalanqué e Hunab Kú o que deviam fazer para saírem vitoriosos da prova da caverna do Deus Morcego. Encontramos tzinacan (o morcego) desenhado em estelas, códices e vasilhas maias com a libré do Deus do Ar. Podemos ver o apêndice nasal e os dentes triangulares saindo para baixo, a partir das comissuras dos lábios. Nos códices astecas, os vampiros da terra quente do sul eram sempre desenhados em braseiros, vasos e apitos.




A boca se caracteriza pelos caninos e incisivos inferiores tapados pela língua que, nas urnas zapotecas, sempre aparece para fora; as orelhas grandes e bem formadas; saindo das orelhas, em forma de folhas, o tragus em jade; dedos curtos e com garras para cima para poder utilizar as ventosas das palmas das mãos (as que usam o morcego quando se prende em superfícies lisas); seu apêndice nasal em forma de sela e de folha.

Os templos nahuas, em forma de ferradura, eram dedicados ao culto do Deus Morcego. Seus altares eram de ouro puro e orientados para o leste.

O Deus Morcego tem poder para curar qualquer enfermidade, porém, o tem também para poder cortar o cordão prateado da vida que une o corpo à alma. Os Mestres nahuas o invocavam para pedir-lhe cura para seus discípulos ou para seus amigos profanos. Assistiam à invocação somente iniciados que, no interior do templo, formavam uma “cadeia”, alternando nela homens e
mulheres sem se tocar com as mãos nem com o corpo. Os extremos da “cadeia” começavam em ambos os lados do altar e todos permaneciam sentados de cócoras, com as costas contra a parede.

No altar, flores recém colhidas e, a seus lados, sobre duas pequenas colunas talhadas em basalto, grandes braseiros de barro pintados de vermelho, símbolo da vida e da morte. Nos braseiros ardiam lenhos de ciprestes (símbolo da imortalidade), cujo aroma se mesclava com o do defumador de copalli, resinas olorosas e caracóis marinhos de cor branca, moídos.

Depois, com uma faca de obsidiana que tinha empunhadura de jade e ouro, bendizia os participantes e, em silêncio, fazia a invocação ritualística: “Senhor da Vida e da Morte, Te invoco para que venhas sanar todas as nossas doenças”.

Reinava um silêncio imponente, só interrompido pelo crepitar do defumador; de súbito, ouvia-se um bater de asas acompanhado do aroma de rosas e nardos, que se estendia por todo o templo.

Dos braseiros saía uma flama que se alargava como que querendo alçar o céu; o Mestre, juntamente com os assistentes, prostravam-se até encostar seus rostos na terra.

A Deidade nahua da Morte (o Deus Morcego) baixava, adornado com a libré do Deus do Ar, ou em forma de mocho, às provas fúnebres do arcano 13. Treze degraus tinham as escadarias da
entrada dos templos de mistérios nahuas e Huehueteotl, o Deus Velho, tem 13 grandes mechas em sua cabeleira.

Dentro do recinto do Templo Maior de Tenochtitlan existiu um templo circular dedicado ao Sol; situado para o leste, seu teto permitia a entrada dos raios solares diretamente no altar. 

No muro interior do fundo desse templo, encontrava-se um gigantesco Sol de ouro puro, representação visível da Grande Deidade invisível, Ipalnemoani. Sua porta de entrada era formada pela boca duma serpente com fauces abertas; de suas comissuras, curvas e ameaçadoras, saíam presas e, em relevo, sobre o piso, saía da porta do templo uma grande e bífida língua. No frontispício do templo, em relevo, outra enorme serpente com fauces abertas e presas afiadas, simbolizando o monstro contra o qual teriam que lutar os Adeptos da augusta Ordem dos Comendadores do Sol.

Entre as câmaras secretas desse templo de mistérios existiu o tzinacalli (a casa do morcego), espaçoso salão com aspecto interior de caverna sombria onde tinham lugar os rituais de iniciação.

Sobre o umbral da pequena porta, no muro interior do fundo da caverna, ocultava-se uma entrada que dava acesso ao templo. Aí dependurava-se um grande espelho de obsidiana e, frente a essa pequena porta, no solo, ardia uma fogueira de troncos de pinho.

O candidato à iniciação era levado ao tzinacalli onde ficava sozinho até altas horas da noite. Ele era indicado que caminhasse através da obscuridade para a luz de uma fogueira e que, uma vez frente a ela, falasse ao guardião do umbral: “Sou um filho da Grande Luz; trevas, afastem-se de mim”.

Os morcegos começavam a revolutear e a emitir sons sobre a cabeça do candidato.

Os troncos de pinho iam-se apagando até que restavam brasas miúdas e algumas cinzas, cujo fogo refletia-se no espelho. De repente, um ruidoso bater de asas, um alarido aterrador e uma sombra humana, com asas de morcego e maxtlatl ao redor da cintura, emergia da obscuridade ameaçando, com sua pesada espada, decapitar o intrépido invasor de seus domínios.

Ai do candidato que retrocedesse aterrorizado!

Uma porta que até então permanecera habilmente dissimulada na rocha, abria-se silenciosamente e, no quício, aparecia um estranho assinalando o caminho do mundo dos profanos de onde o candidato havia vindo.

Porém, se o candidato tinha presença de ânimo suficiente e resistia com impavidez à investida de Camazotz (o Deus dos Morcegos), a pequena porta, oculta frente a ele, abria-se suavemente e um dos Mestres se adiantava ao seu encontro para descobrir e incinerar a efígie do candidato, modelada em papel de amate, oculta entre as sombras da caverna, enquanto os demais Mestres davam ao candidato as boas-vindas e o convidavam para entrar no templo. Este ritual simboliza a morte das paixões da personalidade do iniciado em sua passagem das sombras para a luz.


Através das provas a que eram submetidos os candidatos à iniciação nas antigas escolas nahuas de mistérios, sua alma animal era retratada às vezes como morcego porque, como o morcego, a alma deles estava cega e privada do poder, por falta de luz espiritual, do Sol.

Como vampiros, os depravados e avaros se lançam sobre suas presas para devorar as substâncias vivas que há nelas e, depois, deambulando preguiçosamente, regressam às cavernas sombrias dos sentidos, onde se ocultam da luz do dia, como todos os que vivem nas sombras da ignorância, da desesperação e do mal.

O mundo da ignorância está governado pelo temor, pelo ódio, pela cobiça e pela luxúria. Em suas cavernas sombrias, vagam homens e mulheres que só se movem no vaivém de suas paixões.

Somente quando o homem realiza as verdades espirituais da vida, ele escapa desse subterrâneo, dessa maldita caverna de morcegos onde Camazotz, que muitas vezes só com sua simples presença causa a morte, permanece oculto, espreitando suas vítimas. O Sol da Verdade levanta-se no homem e ilumina seu mundo, quando o homem eleva sua mente da obscuridade da ignorância e do egoísmo até a luz da sabedoria e do altruísmo. O símbolo desse estado de consciência no homem são os olhos da águia que, sobre os tarsos dos pés de Coatlicue, tratam de olhar para o infinito.

Matéria feita pelo leitor: Giovani Antunes Cari
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