O Brilho da Morte: A Tragédia, os Nomes e as Cicatrizes Inapagáveis do Césio-137 em Goiânia

Foto da vitima contaminada pelo césio 137 em goiânia
Foto: Acervo Popular

Setembro de 1987. Goiânia, capital do estado de Goiás, vivia a rotina de uma metrópole brasileira em expansão. O clima quente e seco do cerrado acompanhava o vai e vem de milhares de trabalhadores. Longe dos holofotes da Guerra Fria e das usinas nucleares de superpotências, ninguém na cidade poderia imaginar que o maior desastre radiológico em área urbana da história da humanidade estava prestes a se desenrolar em suas ruas, bairros e quintais.

Diferente do desastre de Chernobyl, ocorrido no ano anterior na União Soviética, o pesadelo de Goiânia não envolveu reatores colossais, cientistas em jalecos ou sirenes de evacuação soando em uma usina. A tragédia goiana nasceu do abandono, germinou na miséria e floresceu na ignorância. O "monstro" era pequeno, cabia na palma de uma mão: uma cápsula de irídio contendo 19,26 gramas de pó de cloreto de césio-137. Um material sintético, letal, cujo brilho azulado no escuro exercia um fascínio quase místico.

Este artigo é um resgate histórico detalhado e uma homenagem às vítimas. Mais do que números em relatórios da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) ou da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), as vítimas de Goiânia eram crianças brincando no chão de terra, mães cuidando de suas famílias, trabalhadores braçais buscando o sustento diário e catadores de recicláveis tentando sobreviver com as sobras da sociedade.

Para entender a magnitude da dor deixada pelo Césio-137, é preciso reconstruir a história passo a passo, rosto por rosto, desde o abandono do equipamento até os dias de horror no Estádio Olímpico e no Hospital Naval Marcílio Dias.

O Abandono e a Busca Pela Sobrevivência

A semente do desastre foi plantada anos antes de 1987, no centro de Goiânia. O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) havia mudado de endereço, mas as disputas judiciais entre os proprietários da clínica e os donos do terreno onde o prédio antigo ficava resultaram em um impasse. O edifício na Avenida Paranaíba foi deixado em ruínas, parcialmente demolido. Dentro dele, em uma sala sem proteção ou vigilância adequada, foi esquecida uma unidade de teleterapia modelo Cesapam F-3000.

A máquina, fabricada na década de 1970, continha em seu interior um cabeçote de chumbo pesado, projetado para abrigar e blindar a perigosa fonte radioativa usada para tratar pacientes com câncer.

No dia 13 de setembro de 1987, a busca por sobrevivência de dois jovens catadores de materiais recicláveis cruzou o caminho da negligência médica e jurídica. Roberto dos Santos Alves (22 anos) e Wagner Mota Pereira (19 anos) viviam de coletar ferro-velho, papelão e metais pelas ruas da cidade. Ao entrarem nas ruínas do antigo IGR, viram na pesada máquina abandonada uma oportunidade de lucro. O chumbo e o metal do equipamento poderiam render um bom dinheiro no mercado paralelo de sucatas.

Sem saber que estavam lidando com uma bomba-relógio invisível, Roberto e Wagner desmontaram parte do aparelho. Colocaram a peça de metal de quase 120 quilos em um carrinho de mão e a levaram para a casa de Roberto, na Rua 57, a cerca de meio quilômetro de distância.

Os Primeiros Sinais da Radiação

A radiação não tem cheiro, cor (durante o dia) ou som, mas seus efeitos no corpo humano são brutais e quase imediatos em doses altas. Na mesma noite do dia 13, ambos começaram a sentir náuseas intensas, tonturas e diarreia.

Wagner procurou atendimento médico, mas os sintomas foram confundidos com uma intoxicação alimentar comum. Como as náuseas não passavam, ele parou de trabalhar. Roberto continuou a tentar desmontar o cabeçote da máquina no quintal de sua casa. Usando marretas e chaves de fenda, ele conseguiu, no dia 18 de setembro, perfurar a janela de irídio que lacrava a cápsula.

Foi nesse momento que ele viu, pela primeira vez, a luz azul escura emanando do orifício. Ele conseguiu extrair pedaços de um pó branco, parecido com sal grosso, que brilhava no escuro. Fascinado, mas sentindo queimaduras nas mãos que mais tarde resultariam na amputação de parte de seus dedos e braço direito, Roberto decidiu que era hora de vender o material.

O Ferro-Velho e o Fascínio Fatal

No dia 18 de setembro, a peça foi vendida por Roberto e Wagner para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Devair era um homem trabalhador, conhecido no bairro e orgulhoso do seu negócio de reciclagem.

Quando Devair examinou a peça no escuro da noite, presenciou o mesmo fenômeno que Roberto: um brilho azul intenso e hipnotizante. Na tabela periódica, o Césio é um metal alcalino, mas na forma de cloreto (um sal), ele absorve a umidade do ar. O brilho azul era causado pela radiação gama e beta ionizando as partículas de ar ao redor do pó, um fenômeno conhecido como Efeito Cherenkov (frequentemente visto em reatores nucleares submersos em água) misturado com a fluorescência do ar.

Devair acreditou ter encontrado algo valioso, talvez sobrenatural ou uma pedra preciosa. Ele levou a cápsula para dentro de casa. Durante os dias que se seguiram, ele recebeu amigos, familiares e vizinhos para mostrar a maravilha.

O pó de césio-137 tem uma característica terrível: ele é altamente friável e solúvel. Ele se esfarela e gruda em tudo com facilidade, como o pó de um giz ou glitter. As pessoas que visitavam a casa de Devair levavam pequenas partículas do material radioativo nas mãos, nas solas dos sapatos, nas roupas. O "carnival" da radiação havia começado. Pedaços do material brilhante do tamanho de grãos de arroz foram dados como presentes. Irmãos de Devair levaram pedaços para suas casas, espalhando a contaminação para outros bairros.

As Vítimas Fatais – Histórias Interrompidas

O saldo direto e agudo do Césio-137 ceifou a vida de quatro pessoas nas semanas seguintes à descoberta. A morte pela Síndrome de Radiação Aguda (SRA) é um processo doloroso, onde a radiação destrói o DNA das células, impedindo a renovação celular, destruindo a medula óssea, o sistema imunológico e as paredes do trato gastrointestinal.

As quatro histórias a seguir são os rostos oficiais da tragédia.

Leide das Neves Ferreira, 6 anos: A Inocência Roubada

Leide das Neves Ferreira

A imagem de Leide das Neves Ferreira tornou-se o triste e permanente ícone do desastre de Goiânia. Filha de Ivo Ferreira (irmão de Devair) e de Lourdes das Neves, Leide era uma menina alegre, de 6 anos, com uma vida humilde e cheia de brincadeiras pelas ruas do bairro.

No dia 24 de setembro, Ivo levou para casa um pequeno fragmento do pó brilhante que havia pegado no ferro-velho do irmão. Colocou o material sobre a mesa da sala. Durante a refeição, Leide, fascinada pelo pó luminoso, brincou com ele. Ela esfregou as mãos no material, passando-o no corpo para ver a pele brilhar no escuro.

Pouco depois, a mãe a chamou para lanchar. Leide comeu um ovo cozido com as mãos sujas do cloreto de césio-137.

O destino da menina foi selado ali. Enquanto a maioria das pessoas sofreu irradiação externa, Leide sofreu contaminação interna gravíssima. A radiação entrou em seu trato digestivo e espalhou-se pela corrente sanguínea, alojando-se nos músculos e órgãos. A dose de radiação estimada que ela absorveu foi de 6 Gray (Gy) — uma quantidade catastrófica e incompatível com a vida.

Poucas horas após a ingestão, Leide começou a vomitar. A família a levou a vários hospitais, mas, como a radiação ainda era um segredo invisível, os médicos a trataram com soro para virose. Quando o alerta nuclear finalmente foi soado no final de setembro, Leide foi transferida às pressas em um avião da Força Aérea Brasileira para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, um centro médico com especialistas em medicina nuclear.

No hospital, a menina viveu semanas de agonia. Seu cabelo caiu, suas gengivas sangravam profusamente e seu sistema imunológico colapsou. Devido à sua altíssima radioatividade, Leide precisou ser isolada em um quarto especial. Os profissionais de saúde mal podiam chegar perto dela por longos períodos para não receberem doses excessivas de radiação. O choro da criança isolada em um quarto de vidro marcou a equipe médica para sempre.

Leide faleceu no dia 23 de outubro de 1987 por sepse e falência múltipla de órgãos. Mas seu calvário não acabou na morte. Por estar altamente radioativa, ela não pôde vestir a roupa que a família escolheu, nem ter um velório de caixão aberto. Seu corpo foi colocado em um caixão forrado de amianto e envolto por uma espessa camada de chumbo, pesando meia tonelada, para proteger as pessoas ao redor.

Durante o enterro em Goiânia, um episódio vergonhoso de pânico coletivo e desinformação manchou a história da cidade. Moradores da região do Cemitério Parque atiraram pedras, tijolos e bloquearam as ruas na tentativa de impedir o sepultamento da criança, temendo que o césio contaminasse o lençol freático. A polícia precisou intervir com força para que a pequena Leide pudesse, finalmente, descansar na terra sob toneladas de concreto armado.

Maria Gabriela Ferreira, 37 anos: A Heroína Anônima

Maria Gabriela Ferreira

Se o desastre de Goiânia não atingiu proporções apocalípticas de milhares de mortos agudos, isso se deve à coragem e à intuição de uma mulher simples: Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair.

Maria Gabriela era o coração da casa e do ferro-velho. Nos dias que se seguiram à chegada da cápsula brilhante, ela viu seu mundo desmoronar. Seu marido, funcionários, vizinhos e parentes começaram a adoecer misteriosamente. As pessoas apresentavam diarreia severa, vômitos, tonturas e queimaduras que apareciam na pele sem explicação.

Ela mesma cuidava dos doentes em casa, limpando o vômito e dando banhos, sem saber que estava recebendo imensas doses de radiação ao se expor aos fluidos contaminados. Os médicos dos hospitais locais estavam perplexos, diagnosticando alergias, doenças de Chagas ou intoxicação alimentar.

No dia 28 de setembro, quinze dias após o roubo da máquina, Maria Gabriela tomou uma decisão crucial. Ela percebeu um padrão: todas as pessoas doentes tinham tido contato com a peça brilhante que o marido guardava. Contrariando Devair, que ainda acreditava que a peça tinha valor, Maria Gabriela colocou a cápsula vazando pó em um saco de estopa. Acompanhada por um funcionário do ferro-velho, pegou um ônibus urbano do transporte público — espalhando partículas radioativas por todo o trajeto — e seguiu até a sede da Vigilância Sanitária Estadual.

Ao chegar, colocou o saco sobre a mesa de um dos veterinários do órgão e afirmou com convicção: "Essa coisa está matando a minha família".

O ato de transportar a cápsula junto ao corpo causou em Maria Gabriela uma exposição letal estimada em 5,7 Gy. A radiação gama atravessou seu corpo durante todo o trajeto de ônibus. Ela desenvolveu alopecia (perda de cabelo), hemorragias internas e lesões graves na pele e mucosas. Assim como sua sobrinha Leide, foi transferida para o Rio de Janeiro.

Maria Gabriela lutou bravamente, mas as hemorragias intestinais e o colapso imunológico foram irreversíveis. Ela faleceu em 23 de outubro de 1987, no mesmo dia em que a menina Leide, a poucos quartos de distância no Hospital Marcílio Dias. Sua atitude heroica salvou a cidade, mas a história a recorda como uma das vítimas mais trágicas, que deu a própria vida para deter o avanço do veneno invisível.

Israel Batista dos Santos, 22 anos: O Peso do Trabalho

Israel Batista dos Santos era um jovem funcionário do ferro-velho de Devair. Ele representava a vasta população de trabalhadores braçais do Brasil, lutando diariamente por um salário mínimo e melhores condições de vida.

Quando Devair decidiu que o cilindro que protegia a cápsula de césio deveria ser quebrado para que o chumbo puro pudesse ser vendido, a tarefa recaiu sobre os funcionários. No dia 21 de setembro, sob o sol forte de Goiás, Israel passou horas marretando a peça.

A cápsula era extremamente resistente, feita de chumbo espesso e aço. Durante todo o tempo de esforço físico contínuo, suando, Israel respirou a poeira que se levantava da máquina e ficou com as pernas, braços e mãos em contato direto e constante com a fonte altamente radioativa de Césio-137.

A absorção de radiação no corpo de Israel (estimada em 4,5 Gy) causou necrose imediata em seus tecidos, problemas cardiovasculares respiratórios graves e destruição da medula óssea. Seus pulmões foram severamente comprometidos, causando um sofrimento respiratório agonizante. Internado no Rio de Janeiro ao lado dos demais pacientes críticos, Israel não resistiu às infecções pulmonares combinadas com o choque sistêmico. Faleceu em 27 de outubro de 1987. Seu contato com o césio não foi por fascinação pela luz, mas por obediência laboral e necessidade econômica.

Admilson Alves de Souza, 18 anos: A Juventude Ceifada

Admilson era colega de trabalho de Israel. Com apenas 18 anos, estava na flor da juventude e apenas procurava garantir o dinheiro da semana no ferro-velho.

Junto com Israel, Admilson também foi encarregado por Devair de abrir e limpar a pesada peça de metal. Além da força bruta empregada, Admilson também manuseou partes internas da cápsula. A exposição à fonte não blindada de césio, a centímetros do seu corpo, causou lesões radio-induzidas de altíssima severidade. O corpo humano, quando submetido a um estresse radioativo tão concentrado, perde sua capacidade de coagular sangue e combater as bactérias mais simples.

A dose absorvida por Admilson foi de 5,3 Gy. Os primeiros dias após a exposição foram marcados por prostração total, dor intensa e úlceras na pele. Transferido para a unidade especializada, Admilson viu seu corpo se desintegrar internamente em um curto período. A juventude de seus órgãos não foi suficiente para lutar contra a quebra irreversível do seu DNA.

Admilson foi a primeira vítima fatal do acidente a falecer, no dia 18 de outubro de 1987, vítima de dano pulmonar severo, hemorragia e falência dos sistemas vitais. Seu caixão, também lacrado, foi um prelúdio do luto que estava por engolir a cidade de Goiânia e o Brasil inteiro naquelas semanas.

A Descoberta do Perigo e a Intervenção da Ciência

Para compreender o caos e o trauma, é vital revisitar o momento em que a verdade veio à tona. Quando Maria Gabriela deixou o cilindro na Vigilância Sanitária no dia 28 de setembro, a peça permaneceu em uma cadeira no pátio por um dia inteiro. Um dos diretores do órgão suspeitou que a máquina estivesse vazando algum tipo de substância perigosa e acionou a Secretaria de Saúde para que um físico fosse investigar.

Walter Mendes Ferreira

Foi o físico Walter Mendes Ferreira, que trabalhava com instalações nucleares, quem tomou a frente. Ele pediu emprestado um monitor de radiação (cintilômetro) da NUCLEBRÁS (empresa estatal de energia nuclear) que ficava na cidade.

Ainda a quilômetros de distância do prédio da Vigilância Sanitária, o ponteiro do aparelho de Walter começou a oscilar violentamente e saiu da escala. Ele pensou que o equipamento estava quebrado, mas logo percebeu o impensável: havia uma fonte massiva de radiação aberta e ativa em uma área urbana densamente povoada.

Ao chegar ao prédio, Walter convenceu as pessoas a evacuarem o local imediatamente e isolou a área. Ele próprio correu para alertar as autoridades. Começou então a "Operação Césio-137". O pânico substituiu o silêncio.

O Estádio do Pavor e a Radiação Social

A notícia de um vazamento nuclear vazou rapidamente para a imprensa local e nacional. O terror tomou conta de Goiânia. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) despachou técnicos com trajes de proteção e contadores Geiger-Müller para a cidade.

Eles descobriram rapidamente que as casas de Devair, de seu irmão Ivo e as ruas por onde as pessoas contaminadas andaram eram "zonas quentes" de alta radiação. Pior do que isso: o ônibus que Maria Gabriela pegou circulou pela cidade por dias, o dinheiro (notas de cruzado) que Devair usou para pagamentos estava contaminado, e roupas foram lavadas junto com peças normais, espalhando as partículas radioativas pelas tubulações.

O governo do estado de Goiás e a CNEN ordenaram que todos os moradores da região, ou qualquer um que tivesse entrado em contato com o pó azul e seus portadores, se dirigissem ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico para uma triagem.

O que se viu no estádio foi um cenário digno de ficção científica apocalíptica, que gerou profundos traumas psicológicos na população. Cerca de 112.000 pessoas (mais de 10% da população de Goiânia na época) passaram pelo estádio em poucos dias, formando filas quilométricas sob o sol escaldante. Técnicos da CNEN passavam varinhas de detecção sobre mães em prantos, crianças assustadas e idosos. Se o aparelho "gritasse", a pessoa era imediatamente separada de sua família, despida, lavada agressivamente com água, sabão e vinagre em tendas de descontaminação e mandada para isolamento.

Deste total, 249 pessoas apresentaram níveis significativos de contaminação interna ou externa e 129 tiveram contaminação confirmada dentro e fora do corpo. Destas, cerca de 20 foram internadas em estado grave e precisaram de atenção médica rigorosa, culminando nas quatro mortes oficiais e nas amputações.

A Radiophobia e a Discriminação

As vítimas do acidente não sofreram apenas a dor física; elas experimentaram um ostracismo cruel, alimentado pela ignorância e pelo medo. A síndrome da "Radiofobia" instalou-se no Brasil e no exterior.

Durante os meses seguintes ao acidente, qualquer pessoa nascida ou residente em Goiás passou a ser vista como uma ameaça ambulante. Motoristas com placas de Goiânia tinham seus carros apedrejados ao cruzar a fronteira de outros estados. Pilotos de companhias aéreas recusavam-se a voar para a capital goiana, e hotéis em São Paulo e no Rio de Janeiro cancelavam reservas de cidadãos goianos.

Os próprios vizinhos das vítimas começaram a hostilizá-las. Os familiares dos mortos e os sobreviventes que precisaram amputar membros sofreram com a depressão e a solidão. O caso tornou-se um pesadelo psicológico prolongado.

Os Sobreviventes e as Feridas Invisíveis

A narrativa do Césio-137 estende-se muito além das quatro fatalidades. As vidas poupadas pela medicina continuaram marcadas de forma indelével pelo isótopo radiativo. As cicatrizes não foram apenas queimaduras ou mutações genéticas, mas traumas na alma e ruínas financeiras.

Devair alves

Devair Alves Ferreira, que ironicamente sobreviveu após absorver uma dose estimada colossal de mais de 7 Gy (uma anomalia médica atribuída à distribuição heterogênea da radiação e cuidados intensivos), viu seu mundo desmoronar. Ele sobreviveu ao césio, mas sua vida havia acabado. Perdeu a esposa, Maria Gabriela; perdeu a sobrinha, Leide das Neves; e foi forçado a testemunhar o ódio de parte da cidade por ser considerado o responsável pela contaminação. Culpado por seu fascínio irresponsável, afundou em uma depressão severa. Desenvolveu alcoolismo crônico e perdeu tudo o que havia construído no ferro-velho. O Estado o abrigou nas instalações construídas para acompanhamento das vítimas, mas Devair morreu anos depois, em 1994, aos 41 anos, devido às complicações de uma cirrose hepática exacerbada pela imunidade enfraquecida.

Crédito: Carlos Costa - O Popular

Ivo Ferreira, pai da menina Leide, também amargou a dor do sobrevivente. Além de lidar com o estigma eterno e a saudade insuportável de sua filha de 6 anos, viu sua família ser expulsa do convívio social. A radiação comprometeu permanentemente sua saúde, desenvolvendo efisema pulmonar intenso que o debilitou ao longo dos anos, até que faleceu no início dos anos 2000.

Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, os jovens catadores que deram o gatilho inicial ao desmontarem a bomba, sobreviveram. No entanto, pagaram com a perda irreparável de seus corpos. Roberto precisou amputar parte de seu braço direito, pois a exposição direta prolongada necrosou seus tecidos ao manusear a máquina com as mãos nuas. Wagner também sofreu amputação nos dedos das mãos. Ambos passaram a depender do auxílio do Estado por meio da Fundação Leide das Neves, vivendo com limitações físicas, dores crônicas nos cotos amputados e severo desgaste psicológico por saberem onde tudo havia começado.

Há ainda centenas de outras vítimas diretas e indiretas: policiais militares que fizeram o isolamento da área de chinelo e camisa curta no início da operação; caminhoneiros que transportaram a terra contaminada sem o devido equipamento e desenvolveram cânceres e doenças autoimunes anos mais tarde; grávidas que foram expostas e sofreram abortos espontâneos pelo trauma e medo. O número extraoficial de vítimas fatais nos anos e décadas que se seguiram, decorrente de cânceres, depressão e doenças hematológicas causadas pela radiação ou estresse profundo, é um debate amargo entre as associações de vítimas e o governo até os dias de hoje.

A Cicatriz Geográfica – O Lixo Radioativo

A desintegração de corpos e almas ocorreu lado a lado com a desintegração de partes da própria cidade de Goiânia. A poeira de cloreto de césio-137 havia aderido a paredes, tetos de zinco, roupas de cama, calçadas de concreto e no solo. A limpeza foi uma operação militar monumental.

Técnicos equipados com roupas de chumbo e máscaras determinaram que não bastava limpar; era preciso arrancar o mal pela raiz. Oito casas que foram consideradas focos primários de radiação (incluindo o ferro-velho e a casa de Devair e de Ivo) foram totalmente demolidas, e a própria terra onde se erguiam foi escavada até meio metro de profundidade.

Utensílios domésticos, documentos de família, fotos antigas, brinquedos da menina Leide, móveis, carros e árvores da região foram todos confiscados. Até cães e galinhas que circulavam pelas propriedades precisaram ser eutanasiados e levados embora.

Todo esse desastre gerou exatos 6.000 toneladas de lixo radioativo – classificado internacionalmente como rejeito de baixa e média radioatividade. Era um volume gigantesco gerado por menos de 20 gramas da substância original.

O destino desse material representou outra batalha para Goiás. Esse volume não podia simplesmente ser depositado em um lixão. Foi construído no Parque Estadual Telma Ortegal, localizado na zona rural do município vizinho de Abadia de Goiás, o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO).

Neste local, o lixo mortal foi ensacado e colocado dentro de caixas de aço, que por sua vez foram alocadas em milhares de contêineres de concreto de alta resistência. Tudo foi empilhado em imensas valas e recoberto com asfalto e camadas de rocha. Essa "tumba do Césio" precisará ser monitorada ativamente pelas autoridades brasileiras por, pelo menos, 300 anos – o tempo calculado (10 meias-vidas do Césio-137, que tem meia vida de 30,2 anos) para que a radioatividade do material diminua a patamares de segurança iguais aos da radiação natural de fundo. Até o ano de 2287, o silêncio daquele depósito em Abadia de Goiás será o maior testamento físico do erro humano.

Responsabilidades, Justiça e Legado

Quem, no fim, foi o culpado pela tragédia? A resposta a essa pergunta ocupou o judiciário brasileiro por mais de uma década.

Não foram os catadores famintos e analfabetos em física que abriram a peça. Não foi o dono do ferro-velho iludido pela luz azul. A responsabilidade primária caiu sobre as falhas grotescas de regulamentação, administração e negligência médica.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão máximo responsável pela fiscalização de todo e qualquer material radiativo no território brasileiro, admitiu que a burocracia, a falta de registros rigorosos sobre os aparelhos inativos e a escassez de inspeções locais resultaram no "desaparecimento" legal da máquina.

No entanto, o peso maior recaiu sobre os médicos e proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). A justiça entendeu que eles agiram com negligência culposa grave ao abandonar o terreno de uma antiga clínica sabendo que havia ali equipamentos médicos inativos com fontes de irradiação no interior, sem comunicar devidamente às autoridades de desmantelamento.

Em 1996, o julgamento final condenou três médicos do antigo IGR por homicídio culposo (sem intenção de matar) a penas de três anos e dois meses de prisão. Outro médico e o físico responsável da clínica também enfrentaram longos embates legais. Porém, devido às leis de progressão de pena e à idade avançada dos condenados, as sentenças de privação de liberdade foram rapidamente atenuadas para regimes abertos ou prestação de serviços, frustrando profundamente a Associação das Vítimas do Césio-137.

Para o mundo, no entanto, a herança de Goiânia foi brutal, mas pedagógica. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) elaborou relatórios extensos detalhando minuto a minuto as falhas de Goiás. A partir de 1988, a legislação nuclear internacional mudou para sempre. O rastreamento de fontes radiológicas do berço ao túmulo tornou-se compulsório em boa parte do mundo ocidental. Passou a ser exigido que as clínicas não apenas comprassem materiais para radioterapia, mas provassem um plano seguro de descomissionamento e descarte definitivo (back-end). As cápsulas antigas em todo o mundo foram inventariadas. E a formação dos órgãos de Vigilância Sanitária em países de terceiro mundo ganhou, pela primeira vez, cadeiras sobre protocolos de radioproteção civil.

A Memória Como Escudo

A trágica jornada do Césio-137 em Goiânia nos deixa lições atemporais. Mostra-nos como a desigualdade social no Brasil — onde o lixo de uns é a sobrevivência desesperada de outros — pode se tornar o estopim de uma catástrofe inimaginável.

Hoje, as áreas demolidas em Goiânia deram lugar a um centro cultural e a praças, e os níveis de radiação em toda a cidade são absolutamente normais e seguros. O Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) ainda monitora centenas de pessoas que carregam no sangue e nas memórias as sequelas do fim de setembro de 1987.

Lembraremos para sempre do choro isolado de Leide das Neves, da bravura anônima de Maria Gabriela e das vidas perdidas de trabalhadores braçais e cidadãos comuns, pois, na história do desenvolvimento científico e tecnológico, o brilho das grandes invenções da humanidade nunca pode ofuscar a necessidade implacável do cuidado e da informação de base. Ignorar este fato não é apenas um erro; é, como nos provou Goiânia, o convite a um veneno reluzente, silencioso e inexorável.

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